++ percepção lentamente valorizada do amor brasileiro agreste <:> rito ovariano onírico e negro :x: paixão e sociabilidade dionisíacas comungadas por dona deuSa (sílvia goulart) e o boi arteiRo (marcus minuzzi) <:> a verdade xamânIca da guerra apruma nossas corações antigos e dispostos a tudo contra o fascismo :x: poemas, análises, amores pictografados <:> elegia ao sertão artístico :x:

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

o diA em que rezei com eDir maCedo



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O dia mais importante de minha vida foi aquele em que meu fervor religioso se uniu ao do próprio bispo Edir Macedo e, junto com ele, dirigi uma prece aos céus.

Não é brincadeira. Esse dia existiu. E se não foi efetivamente o mais importante de meu fado enquanto cidadão brasileiro, casado, jornalista, porto-alegrense, pai de família, foi um dos que nunca esquecerei.

Foi nele que tomei tento da extrema gravidade da questão cultural. Falo em "questão cultural" para me referir ao dificílimo problema da alteridade, ou seja, as imensas guerras que surgem por conta da famigerada diferença (seja ela racial, de classe, de gênero, étnica, religiosa etc.).

Pra quem não sabe, sou aventurosamente religioso. Ou, mais exatamente: me embrenho, desde mais ou menos os 30 anos de idade, pela selva pode-se dizer pedregosa do misticismo brasileiro, em sua mistura de elementos europeus, indígenas e africanos. 

Em função disso, ritualizo a maior parte de meus momentos, como forma de amor e união com essa rica base de realização psicológica e espiritual.

O plano do ritual é que nos leva a um sonhar acordado, divino, intuitivamente distante do medo. Nos direciona para bem longe do medo de amar.

Nos desloca para um afeto semelhante ao de quando éramos meninos e meninas, temo em que nossa segurança no mundo ainda não havia sido prejudicada pela dimensão trágica da existência.

Nesse dia inesquecível de que falo, era um domingo, e no meio de minha ritualização que me levara à sempre penumbrosa região do inconsciente, não lembro bem, mas acho que liguei por acaso a televisão.

Estava no canal do Edir Macedo. E ali o bispo dirigia palavras ao deus de sua religião.

E eu, pleno de ritual, tinha à minha frente uma visão ampliada, em direção a esses espaços magníficos, onde o uno é indivisível, onde não há a menor chance de nos indispormos com aquilo que é diferente de nós mesmos.

E então rezei com o polêmico fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Fiquei impressionadíssimo com tal resultado, pois o senso de união brotara espontaneamente, fazendo com que me vertessem lágrimas aos olhos.

Edir Macedo navega também pelo mar do inconsciente, que eu sei. Sua igreja bem lotada, no entanto, desperta inúmeras desconfianças.

Não sei se há um sabor de guerra santa no Brasil atual, em que o neopentecostalismo é uma viva realidade.

Mas, para avaliadores culturais como eu, que buscam a miscigenação pela mistura de amplas de possibilidades do ser, Edir Macedo é uma presença, digamos assim, difícil de ser engolida.

Porém, quando viro criança de novo, resgato a esperança perdida de paz. Essa esperança como que reside em um fundo de mar. É preciso nadar contra poderosas correntes para se chegar até ela.

É preciso encontrar frutas miúdas, com sabor silvestre, para que nos lembremos da manhã do mundo. Para que recuperemos a força mágica da noção de paraíso.



O mito da mistura racial no país é como nessa intenção navegadora, descobridora. Quando nadamos no mar do inconsciente, sem cansaço, via de regra nos encontramos com as encantadas noções de cordialidade.

Redescobrimos um ninho, um útero, onde se aconchegam umas nas outras crianças representantes de nossa variedade multiétnica.

Temos então a impagável chance de trazer para mais perto da realidade cotidiana um mito, o próprio mito da cordialidade brasileira. Nele, todos amam ser apenas uma única coisa, o próprio Brasil.

É ali que ocorre a presença de símbolos nada bélicos - a Coroa de Cristo, o Cristo Redentor, o Carnaval, a própria cidade do Rio de Janeiro -, que agravam o medo de sermos a nação destinada ao tom da mistura.

É grave, muito grave, o mugido épico do mundo, sua plena potencialidade de dores.

Há um poema do Drummond que aborda essa cruz a ser carregada. Chama-se "A máquina do mundo" e fala da dificuldade de se encarar, com cuidado, a realidade do mito.

"A máquina do mundo se entreabriu", escreveu Drummond, "para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia."

Quando dei por mim, o rezar juntos - eu e Edir Macedo - representava uma chance de se chegar à paz somente alcançada mediante uma viagem transcendente bastante rara. Basicamente uma epifania.

E só de pensar nessa vasta região existencial, turbulenta, a ser dominada, meu medo e meu cansaço eram maior que tudo.

Como, afinal, singrar o oceano de significados culturais que nos separa da possibilidade de um Brasil unido? Como restabelecer a paz nesse país conflagrado?

A permanência do nazismo, a facilitação atual de sua face, quando ninguém mais a esperava, faz parte de tal  poderosa máquina do mundo que, por ser tão complexa, raramente se dá por compreendida.

E meu choro com Edir Macedo ilumina um meandro difícil dessa maravilhosa imaginação. Oxalá pudéssemos alcançá-la mais comumente, pois com certeza muito sangue mulato deixaria de ser derramado.

Novos mundos nascem quando navegamos para além da maldita divergência. É alvissareiro acordar com esses sonhos irrompendo a consciência.

O Brasil precisa voltar a sonhar com o mito de sua cordialidade urgentemente. Há um legado cultural consolidado ao longo das últimas décadas que não pode ser desprezado.

Antes, deve ser a base de uma sonhadora missão artística. Tudo aquilo que alimentaram e alimentam os profetas de nossa identidade (nomes que vão de Caetano Veloso a Oscar Niemeyer, de Tomás Antônio Gonzaga a Darcy Ribeiro, de Arthur Bispo do Rosário a Cora Coralina).

Aquilo que o mundo sabe de nós - que somos alegres e hospitaleiros - não é uma mentira. É uma importante e custosa revelação cultural.

É um forma generosa de humanidade, afirmada a partir de um inconsciente coletivo sempre em ebulição, como promessa para o Ocidente.

Isso mesmo, deve-se sonhar grande, deve-se sonhar com a imensidão de uma identidade acima do que já foi experimentado, em termos civilizacionais.

Afinal, sonhos, sonhos são, como escreveu Chico Buarque. Afinal, como afirmou um dos maiores poetas da língua portuguesa, estamos longe, muito longe, de possuirmos uma alma pequena.

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++ marcus, o bOi arTEiro </>/

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"É precisamente neste sentido que numa última fase da prosa pessoana que aborda a questão do destino nacional o principal objectivo que parece reger os projectos de livros de Pessoa é o da criação das condições necessárias que permitam a transformação do Portugal real nesse desejado Quinto Império. 
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Esta seria pelo menos uma das consequências do processo de auto-proclamação por parte de Pessoa como homem de génio, pois se os seus objectivos fossem alcançados seria precisamente na medida em que as condições necessárias para a concretização do Quinto Império teriam sido cumpridas, sendo a sua função a de reconhecer estas condições e responder a elas: (...)" 

++ URIBE, Jorge; SEPÚLVEDA, Pedro. 
o nacionalismo pessoano à luz 
de um novo corpus). >//<

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

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Trago comigo a
Lembrança de
Quando pintava
A nua fonte.
No último galho
Da copa da árvore
Frondosa
Era como se o
Vento guiasse
Meus dedos sujos
De tinta.
O olhar fixava
Um ponto.
O Grande ordenava
Os trabalhadores da
Vinha.
O sol, a chuva, tudo
Era graça.
Tudo era colheita,
Tudo era Obra.
E eu, pintando
Serenamente.
O compromisso com a
Seara que me carregava,
O balanço soturno.
O nariz pro céu,

E a cabeça nova,
Em pura onda magnética.
Éramos soldados.
Somos a esfera
Planetária.
Estamos de volta.
Vamos começar
A semeia.



++ :: sílVia gouLArt, a donA deuSA

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nunca quis ser mais branco do que já sou :: a expressão cansada me denuncia: ouvindo conselhos de árvores ancestrais, como um velho gozo escravo, venho organizando rodinhas de geração das memórias boas, ancestral meditativo ::

nunca quis ser mais bRanco, fazer parte do império de sucção das riquezas gerais ::

sobram aos escravos suas forças de aumento, seu poder amigo das plantas, onírico enraizado, bem quebrador dessas vontades que desfilam sobre o país :: tais vontades são maldosas, pois penalizam o povo, agravando o processo imoral de seu sofrimento :: chutam, batem, sugam ::

eu sou o pária raiz, faço parte da escória raiz :: eu amo sacralizar o poder que bate de frente com os ladrões de bolSonaro e sua máquina nazifascista ::

++ :: marcuS minuZzi, o boi aRteiro


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planTa :: "fruTa boa de cOMer"

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arTE :: as ganhAdeiras de iTapuã





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"Os devotos do candomblé, que podem ou não coincidir com os promotores centrais da festa, “batem a céu aberto” na terra firme a beira-mar e em alto-mar, levando seus praticantes “ao transe”, ou seus participantes a viver momentos de possessão pelos orixás como parte dos rituais da festa para Iemanjá."


Dois de fevereiro, Dia de Iemanjá, 
Dia de Festa no Mar >+<

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

nasCer poBre

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permaneço: assenhoro-me dos sonhos de
nossa realeza preta-parda-nuclear-amazônica

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ágorA :: a música caipira e o verso sagrado na foliA de reiS

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nascer pobre no bRasil? ::
fonte de inominável riqueza ::
pois eu doo o meu sangue,
com retidão absoluta ::
assim, assenhoro-me dos
sonhos de nossa realeza
preta-parda-nuclear-amazônica,
energia infinita de reconciliação
com a gadaria do saGrado,
para vivermos com arTe,
para a arTE, e pela arTe,
nesse legítimo século
de verdadeS intriganTEs
e perturbAdoras ::
eu nasci pobre ::
eu continuarei sendo
poBre, pobre
como uma lavaDeira
do rio vermElho ::
eu sou o rei das abstraÇões
que ninguÉm avalia
como possíveis ::
mais rei que roberto
carlos ou raul seiXas
ou são joão ::
e acho muita gRAça ::
hehehehehehehehe ::
e continua achando graÇa ::
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk ::
acho diviNO e maravilhOso,
como diriA caeTano ::


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filhos são potÊnciaS :: planTa: abóbora cabotiá


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arTe :: déRcio marQues




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filme: o baraTo de iacanga


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"O inconsciente, com efeito, não é isto ou aquilo, mas o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. Ele nos aparece como de natureza psíquica, mas sobre sua verdadeira natureza sabemos tão pouco - ou, em linguagem otimista tanto quanto sabemos sobre a natureza da matéria."

((JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique..
 Petrópolis : Vozes, 2000. >+<

domingo, 13 de outubro de 2019

iemanJá

Qual é o perigo do mar?
A onda que me pega,
Iemanjá vem me salvar.
Estou ancorada e úmida!
Solta!
A onda minha.
Minha onda.
Sereia do mar.
Errante sou.
Navego altiva.
Minha santa,
Não nega!
Ando a coroar estrelas,
Sou sereia do mar.
Brinco em teus castelos.
Afundo e habito corais.
Iemanjá vem me
Buscar.










uma feminista na igReja





"Para poder viver, os gregos, impelidos pela mais imperiosa necessidade, tiveram que criar esses deuses; devemos imaginar isso, sem dúvida, como um processo em que esse instinto apolíneo de beleza foi desenvolvido em lentas transições, a partir daquela primitiva ordem divina titânica do horror, a ordem divina da alegria: da mesma maneira que as rosas brotam de um arbusto espinhento."

(( NIETZSCHE. Friederich. O nascimento da tragédia. >+<


sábado, 21 de setembro de 2019

faço eu mEsma o doce de cOra

++ :: a tonalidade aMorosa recobre a margInal poeTA :://

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Faço eu mesma
O doce de Cora.
Amplio as linhas...
Mestra, divina flor.
Ensina a me ensinar
O teu córrego puro
Onde lavavas teu
Colo, teu comer.
Aprimorar o doce
Com perfeição buscada
Como inspiração de ontem,
De outros tempos.
Quem dirá, meu Deus,
Quem dirá?
De onde venho e
Como me “abanquei”
Aqui?
Esparramada neste centro,
Meu sul, agora oeste, leste,
Sou do Brasil.
E sinto que meu berço
É o mundo, adoçado,
Cozinhado, esculpido
Em pedacinhos de doce.
Insisto no ofício de
Confeitar.
O que nunca fui.
Sempre fui sal.
Assim, descobri
Meu doce.
Faço eu mesma
Meu tacho
De cobre,
Meu trocado.
Se quiserem,
Paguem primeiro,
Que eu vivo
Da arte
De dizer,
De cantar,
De pintar,
De confeitar.

>> poR sílVia gouLart, a donA deuSa  



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planTa: andiRoba


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prefiro o carroceiro e sua carroça 
ao ricaço com sua caminhonete :: 
nada revela mais a verdade de tudo, 
a verdade que mora escondida, 
do que a humilde humildade, 
a humildade mais impetuosa 
que possa existir :: 

nessa minha busca por sentidos 
ocultos, ricos e preciosos-precisos, 
entendo a coleção de possibilidades
existenciais que me deixam 
amável e livre: a recusa a ter razão, 
a recusa ao charco representado pelo dinheiro, 
a recusa
que me enche
de louros à popularidade,
a recusa a querer possuir poder 
sobre objetos-pessoas,
fenômenos-sócio-culturais ::
a recusa a calcular e projetar vitórias, e 
tão somente vitórias, 
em um mundo tão importunado por injustiças
perpetradas por tão-somente vencedores ::

quero ser o caboclo cor de terra,
cor de areia, 
mascador das sementes do girassol ::
minha dor do mundo está aqui, 
e serena mediante essas formas 
tranquilas de doação e de formação de integridade, 
de amor e de panteísmo nacionalista-brasileiro ::

++ por maRcus, o boi aRteiro \<\>/</


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artE:: bye bye bRasil


"Pode ser considerado como um dos marcos últimos das 
representações sobre o nacional-popular tal como 
expressas pelo Cinema Novo desde o início da 
década anterior, mesmo com diferenças 
quanto aquele." >< sobRE o filme de cacÁ dieguEs, em: magiadoreal 


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"A crise final da escravidão, no Brasil, deu lugar ao aparecimento de um modelo novo de resistência, o que podemos chamar quilombo abolicionista. No modelo tradicional de resistência à escravidão, o quilombo rompimento, a tendência dominante era a política do esconderijo e do segredo de guerra. (...) Já no modelo novo, o quilombo abolicionista, as lideranças são muito bem conhecidas, cidadãos prestantes, com documentação civil em dia e, principalmente, muito bem articulados politicamente."

Eduardo Silva+++>



o amoR alimenTA o poeMa

1. A moça comigo brinca na relva. Estou bento iluminado  Com o membro  Amando tesouros míticos. O segredo é peniano. Ora a moça numinosa. A ...

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